O Rádio AM, como todas as ondas, vai para o céu

Franco Malgarizi Chies*

Lendo tantas opiniões sobre a migração do Rádio AM, lembro-me de uma anotação, que fiz alguns anos atrás. Por entre formas de queijo e rabiscos de contabilidade, acabo por encontrá-la, em uma margem do clássico “Almanaque Correio do Povo 1978”. No espaço, os dizeres do Dr. Breno Caldas (datados de 1957), explicando porquê a Caldas Júnior estava adquirindo dois prefixos em Ondas Curtas para a Rádio Guaíba: “É notável o que me disse o Pasqualini (Arlindo Pasqualini, diretor da Folha da tarde e Rádio Guaíba): nós temos a ideia de fazer uma rádio como eu quero ouvir. É esse o segredo para se fazer rádio. Não penso no que alguém quer ouvir, mas sim no que eu quero ouvir. Isso, naturalmente, acaba se tornando agradável aos ouvidos dos ouvintes. Não me preocupo com o que os institutos de pesquisa de audiência divulgam quase que diariamente. Eu quero ouvir a minha rádio. […] Frequentemente me ligam os pilotos da Varig, estacionados no aeroporto de Nova York, dando conta que a Guaíba é perfeitamente ouvida por lá”.
Não consigo me lembrar onde ouvi ou li isso antes de passar para as margens do Almanaque. O Dr. Breno valorizava o alcance da Guaíba. Uma pena não estar mais entre nós.
Assim como as Ondas Curtas, a Amplitude Modulada (AM) é caracterizada pelo caráter de longo alcance em suas transmissões. As duas grandes rádios do RS, Guaíba e Gaúcha, só são grandes por causa da sua abrangência internacional (ambas possuem transmissores AM de 100Kw e dois canais em OC – Guaíba com 10Kw, na banda de 49m e 7,5Kw na de 25m; e Gaúcha com ambos com 7,5Kw).
Lembro-me de uma viagem à Ushuaia, quando me emocionei ao sintonizar a Guaíba pelos 6000KHz da Onda Curta da faixa de 49m. Da mesma forma, na praia de Guarajuba, BA, quando sofreu interferências de uma estação próxima.
E o que dizer de uma emissora do interior então? No livro “Rádio Caxias, 50 Anos”, editado pela EDUCS, da Universidade de Caxias do Sul em 1996, há um relato de um norueguês afirmando ter sintonizado, anos antes, a emissora de 20Kw por lá. Para comprovar, enviava a transcrição da identificação do prefixo: “20h. ZYK 230, Rádio Caxias…”.
Sem as rádios AM brasileiras, o nosso dial será facilmente invadido pelas argentinas, que, aliás, possuem uma espetacular programação musical na madrugada. O AM não pode terminar. Como eu irei acordar sem ouvir o Mendelski, às 5h da manhã? Como irei ouvir Mário Lima nas Jornadas Esportivas, com jogos do Grêmio? Não, eu não vou ouvir na FM. O sinal não chega bem aqui na Pérola das Colônias. Internet? Isso não é mais rádio.
Pelo jeito, assim como todas as ondas de rádio, o AM vai para o céu. Triste!

P.S. Para mostrar como é o alcance de uma AM de 100Kw de potência instalada em Porto Alegre, envio-te, em anexo, a simulação que produzi para um trabalho no início do ano. Dados: 100Kw de Potência, frequência de 720KHz. Há duas simulações: A diurna, com menor alcance, e a noturna, com largo alcance. E aí fica a pergunta: Guaíba e Gaúcha vão querer mesmo abrir mão de tanta cobertura? (Isso é só na AM. Imagine em Ondas Curtas!).

Abrangência diurna da Guaíba

(clica em cima que amplia)

Abrangência noturna da Guaíba

* DO DEPARTAMENTO DE IMPRENSA DO GRUPO EFP

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s